O horário de verão está entre aqueles “sujeitos” que são amados ou odiados, com pouquíssima taxa de indeferença. Isso quer dizer que uma grande parcela da população adora o horário de verão, outra parcela odeia, e uns poucos são indiferentes.
Dentre os que amam estão principalmente aqueles que gostam de fazer algum tipo de exercício ao ar livre após o expediente, o que é facilitado (e muitos acham mais agradável) pela luz natural. Para mulheres, por exemplo, há a vantagem de haver mais gente circulando, o que em tese diminui a possibilidade de serem atacadas. Mesmo em lugares em que essa possibilidade seja remota há sempre aquelas com medo de tudo e de todos, o que de certa forma é compreensível em nossos dias. Já entre os que odeiam estão, entre outros, aqueles que não gostam do calor, por si só. Basicamente reclamam que quando saem do trabalho ainda está muito calor, o que é uma verdade. São diferentes perspectivas para um mesmo fato. Embora tenhamos que respeitar determinadas situações específicas, há uma relação com a “científica” observação do copo meio cheio ou meio vazio. Enquanto uns dizem algo como “Ainda dá tempo para fazer um monte de coisas” outros dizem “Mas que dia para não acabar!”.
Mas, fora as questões pessoais, o que representa de fato o horário de verão? Qual o propósito? O governo fala muito da economia gerada, como se esse fosse o principal objetivo. Há, de fato, economia de energia, mas não é essa a principal razão da adoção do horário de verão.
A iluminação pública em geral é acionada automaticamente, com a utilização de sensores de luminosidade. Isso significa que não há nenhuma alteração no consumo, uma vez que é acionada uma hora depois do normal, e desligada também uma hora depois. Já nas residências, a economia de energia vem do fato de as luzes precisarem ser ligadas mais tarde. Em lugares onde normalmente escurece às 18h, passa a escurecer às 19h. Mas o horário de desligamento das luzes, nas residências, não muda. Quem costumava dormir às 22h não passa a dormir às 23h por causa do horário de verão, e isso vale tanto para os que normalmente “encerram o movimento” às 20h como para aqueles que costuma ir até às 2h. E para a grande maioria das residências nãpo há alteração na utilização das luzes pela manhã. Aquelas como boa iluminação natural normalmente não precisarão da luz elétrica pela manhã, e boa parte delas não precisa nem no horário de verão e nem fora do horário. Há a excessão daqueles que levantam realmente MUITO cedo. Alguns precisam acender as luzes pela manhã durante o horário de verão, e outros precisam fazer isso apenas no início e no fim do horário de verão, mas não em dezembro e janeiro, meses em que o Sol já nasce mesmo mais cedo.
Bem, esgotado o assunto “economia”, vamos à principal razão da existência do horário de verão: A ESTABILIDADE DO SISTEMA. O grande objetivo é evitar ao máximo a concentração do consumo de energia, o que pode levar à queda e consequente “black-out”. Vamos a um exemplo pequeno, e falar de uma única residência.
Suponhamos, para simples exemplo, que uma residência situada em uma região onde a energia fornecida tenha 110V de tensão (conhecida popularmente como “voltagem”). Vamos supor, ainda, que essa casa tenha, no “relógio” (aquele medidor de consumo de energia) um disjuntor de 30A, o que quer dizer que a corrente máxima permitida na instalação elétrica da dita residência seja de 30 ampéres. Se a corrente ultrapassar essa intensidade o disjuntor desligará, e isso é uma questão de segurança. Se a instalação elétrica foi bem dimensionada ela utilizará fios e cabos dentro dos limites, com uma margem de segurança. O cabo que sai diretamente do relógio será próprio para um pouco mais de 30A. Os cabos e fios do interior serão dimensionados de forma que atendam as necessidade específicas. Chuveiros e aparelhos de ar condicionados, por exemplo, serão ligadas a cabos diferentes daquele que leva a energia para um ambiente que tenha uma televisão, DVD e luzes. Mesmo com a existência de um aparelho de ar condicionado no ambiente, normalmente a ligação será separada. Agora é importante um dado técnico: A potência é o produto da tensão pela amperagem. Chamando potência de W (watts), tensão de V (voltagem) e amperagem de A (ampéres), temos W = V x A. Em nosso exemplo assumimos que o planejamento do sistema elétrico considerou uma corrente máxima de 30A. Se nossa tensão é 110V podemos usar a fórmula:
W = V x A, ou W = 110V x 30A = 3300W
A conclusão é que podemos usar no máximo 3300W de potência em nosso exemplo.
Agora vamos a uma simulação de consumo SIMULTÂNEO:
a) 10 lâmpadas de 60w;
b) 2 aparelhos de TV de 80w;
c) Uma ducha ligada na posição INVERNO, com potência de 1500w.
Temos, em nosso exemplo, a utilização de 10 x 60 + 2 x 80 + 1500 = 2260w, o que significa uma corrente de pouco mais de 20A, estando dentro do limite do disjuntor (30A). Agora vamos supor que a residência tenha 2 dessas duchas disponíveios. Se for ligada ao mesmo tempo que as lâmpadas, aparelhos de TV e a outra ducha estiverem ligados haverá a potência passa a ser de 3760W, ou pouco mais de 34A. Isso fará com que o disjuntor desarme, e tudo nessa casa será desligado.
Mas para entendermos melhor a questão da ESTABILIDADE DO SISTEMA precisamos analisar outra hipótese: a outra ducha ser ligada apenas após o fim da utilização da primeira. Se mudarmos o disjuntor para um de 40A (e a instalação da casa utilizar material que permita até 40A), as duas duchas poderão ser ligadas simultaneamente. O consumo total de energia, no entando, não muda se elas foram ligadas simultaneamente ou não.
A conclusão é que o disjuntor de 30A não gera economia em relação ao de 40A, mas o sistema pode “cair” se o uso ultrapassar os 30A em determinado momento. Para atender às necessidades basta que as duchas não sejam usadas simultaneamente (considerando que não são os únicos aparelhos elétricos). Para evitar problemas o dono da residência pode simplesmente trocar o disjuntor. E talvez tenha que trocar mais alguma coisa, ou isolar a instalação da segunda ducha.
Saindo de nosso exemplo para falar de um país inteiro, e de um país grande como o nosso, esse disjuntor poderia ser todo um conjunto de usinas. Ultrapassar o limite em determinado momento significará o desligamento do “disjuntor”, ou uma grande pane. Por isso é importante distribuir os horários de consumo. O Brasil é grande a ponto de ter mais de um fuso horário. Eram 4 até 2008 e agora são 3. Além dos que estão mostrados na imagem (antes e depois da mudança) há ainda o fuso das ilhas oceânicas: Atol das Rocas, Fernando de Noronha e Martin Vaz. Mas de qualquer forma as regiões que mais consomem estão concentradas em um mesmo fuso horário: o de Brasília. Nesse fuso estão as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Porto Alegre, de Belo Horizonte, de Curitiba e outras mais.
O Operador do Sistema, que por si só já é um grande sistema, trabalha de maneira a fazer com que o fornecimento de energia para determinadas áreas seja alternado, de forma a otimizar a utilização do Sistema. Usar a usina (ou complexo de usinas) mais próxima para fornecer energia a uma determinada região é o ideal, porque a distância já gera uma perda, por dissipação. Nem sempre é possível, e não é um grande problema. O problema mesmo é a concentração de uso. O Horário de Verão faz parte da diminuição dessa concentração.
Fala-se muito que o governo precisa construir mais usinas, e esse é sempre um argumento político. O PT usou isso no governo FHC, e o PSDB usou exatamente o mesmo argumento no apagão mais recente. A questão não é simplesmente construir usinas (cuja conta é paga com nossos impostos), mas conseguir a maior racionalização possível. A construção de uma usina hidrelétrica, que vai interferir no meio ambiente e que servirá basicamente para o fornecimento de energia em uma época específica é algo a ser pensado sempre com muito carinho. Por isso, queiramos ou não, temos que usar a energia com muito carinho. Não podemos simplesmente dizer: eu pago a conta no fim do mês. Sim, cada um paga a sua conta, mas a conta da infraestrutura, que nem percebemos, é um adicional que pagamos para podermos continuar usando (e pagando) a energia do dia-a-dia.
Elildo Mancebo Reis :: Feb.05.2010 ::
Cultura... (in)útil? ::
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